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Atalhos - Cefle

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Ecos & Urbanus - 10/12/2001
CIDADE: Qual a definição?

Esta coluna tem por objetivo traçar relações entre o homem, o meio natural, o meio urbano e seu resultado, que é o meio ambiente, de forma a compreender como se dão as interações e influências do meio sobre o homem e de como o homem influencia o meio. Porém, não ofereço respostas, somente algumas reflexões e muitas, muitas perguntas.

Não alimento a pretensão de veicular grandes idéias. Eu não as tenho, nem imagino uma fórmula mágica que transformará o mundo de um estalo (o tempo tem mostrado que isso não é possível). Contudo, este é um lugar para o cultivo de simples e diminutas sementes de pensamento, cujo objetivo é trazer um novo ideal. Eventualmente, poderei até parecer ingênuo quanto ao que tenho a propor e expor, mas é que acredito que a complexidade não colabora em despertar uma nova luz quando a mente está ocupada demais em decifrar um linguajar complicado.

Convido a quem dedicar sua atenção não só a esta coluna, mas a todo tipo de informação sobre as relações entre a vida e o mundo, que afrouxe os conceitos já estabelecidos, de forma a pelo menos permitir novas maneiras de encarar o meio que nos cerca e refletir também sobre esses temas tão urgentes.

O que vem a seguir foi elaborado de forma a conduzir a um entendimento aqueles que nada ou pouco conhecem sobre como se estrutura o funcionamento das grandes cidades, suas relações com o homem e o tão em voga meio ambiente. Os aspectos são muitos, mas falarei apenas sobre alguns. O suficiente para estimular novas curiosidades sobre o assunto, porém não menos do que o fundamental para traçar algumas correlações de como atuamos na estrutura da cidade, e de que forma ela pode afetar e dirigir nossas vidas. Para enfim (quem sabe daqui a quantas edições!), expandir nossa abordagem para idéias pouco ortodoxas sobre um ideal de mundo que, pelo menos enquanto leitura e reflexão, possa existir de forma tão intensa que o tornemos real por um instante, mesmo que por uma breve e sutil mudança de olhar perante a limitada percepção da vida.

E nada melhor para começar esta conversa do que um simples ponto de vista sobre o que é uma cidade.

CIDADE: QUAL A DEFINIÇÃO?

Desde que o primeiro ser humano aproximou-se de outro, sem saber dera partida a uma longa caminhada na história dos processos sobre os relacionamentos de convivência em coletividade.

Curiosamente, a partir de uma suposta tentativa de estabelecer comunicação, o homem deparou-se com a deficiência de seus mecanismos de expressão. Manifestar idéias precisas e estabelecer limites de comportamento que possibilitassem o convívio harmônico não foi tarefa fácil. Porém, algo em comum os unia: manter a existência. Assim nascia a interdependência entre os membros da espécie humana.

Embora a necessidade inicial fosse a sobrevivência em relação ao meio, o homem carecia também de formas de sobreviver em coletividade - o relacionamento humano. Desde então, o que temos feito é procurar maneiras mais aprimoradas, nem sempre melhores e bem-sucedidas, de conviver. Mesmo que nesse momento as necessidades estejam voltadas a manter e melhorar os relacionamentos coletivos, as necessidades individuais nunca deixaram de ter valor proeminente nessas inter-relações.

Aparentemente, pode haver uma distância muito grande entre o que acabo de descrever e o mundo como conhecemos. Afinal, hoje dispomos dos mais diversos mecanismos de comunicação, temos acesso a um sofisticado código de linguagem, por meio da fala e da expressão corporal, representamos idéias e emoções com exatidão, avançamos tanto que já somos capazes de interpretar mesmo aquilo que o que temos de mais sofisticado não é capaz de exprimir. Mas o que realmente mudou no convívio coletivo?

Talvez muitos historiadores não concordem com isso, mas acredito que a primeira cidade tenha surgido dessa aproximação. Pode parecer estranho demais o fato de apenas dois indivíduos formarem uma cidade, tendo em vista a escala de como conhecemos a noção de cidade e de como vivemos hoje. Uma dupla, neste caso, seria o termo mais apropriado, porém não tão ilustrativo quanto o comportamento individual em contrapartida ao coletivo. Portanto, vamos ao esclarecimento: o que mudou foi o número de integrantes, conseqüentemente o tamanho. Por necessidade, a complexidade, e por intermédio das tecnologias, a forma. Porém, o motivo de sua formação e manutenção nunca foram diferentes: a necessidade.

Nós nos aproximamos por muitos motivos. Tantos quantos forem os indivíduos, cada um tem seus próprios motivos para essa aproximação. Mas algo em comum faz com que ocupemos o mesmo espaço e nos sintamos obrigados a pelo menos "suportar" uns aos outros, ainda que essa necessidade nos pareça algo objetivo ou não. Voltando o olhar ao planeta, observa-se que em todos os ecossistemas existentes há, pelo menos em algum nível, uma simbiose entre seus componentes. Aparentemente, unir e cooperar, mesmo que por motivos puramente individuais, é inerente a este lugar.

Definindo de forma simplista, tecnicamente uma cidade é um aglomerado de seres. Sua estrutura e complexidade são maneiras de manter apenas essa aglomeração estável, e não sua origem. Não habitamos uma cidade, nós a compomos.

E se compomos o meio onde vivemos, atuamos nele. Portanto, parece-me razoável conhecer um pouco mais sobre esse meio e seu funcionamento, buscando entender as inter-relações entre essas pequenas células que somos nós nesse complexo organismo. Perceber que ninguém vive só e independente de outro ser ou do meio, seja este qual for, é um grande passo na direção de um mundo mais equilibrado, formado por uma humanidade mais prudente e consciente de seu papel no ecossistema do planeta.

É possível propor maneiras mais ajustadas à condição humana de viver em coletividade, respeitando a vida na íntegra, sem a separatividade do homem de seus semelhantes e dos sistemas que compõem o mundo. Entretanto, não há nenhum meio eficiente que não esteja baseado, como ponto de partida, no ser humano.

Omar Dalank


Omar Dalank é Arquiteto Urbanista e professor do ensino superior em São Paulo.

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