- Planeta em Evolução - 04/11/2002
- Liberdade?
Isso merece uma reflexão.
Algumas coisas
curiosas acontecem em nosso planeta. Uma delas, por exemplo, é a eterna
busca do ser humano pela liberdade. Hasteiam-se bandeiras em seu nome, luta-se,
morre-se e mata-se por esse direito dito "inalienável" do ser.
Mas o que seria essa tal de liberdade para cada um de nós? Será
que todos queremos dizer a mesma coisa quando nos referimos a ela? Essas perguntas
são mais capciosas do que aparentam ser, mas serei um pouco ousado e me
aventurarei por esse caminho. Para começar, acho
válido termos em mente o fato de que, no conhecido Novo Dicionário
da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, a
palavra "liberdade", por si só, apresenta onze significados enumerados,
fora diversas expressões das quais faz parte. É bom mencionar também
que alguns desses significados são bastante contraditórios entre
si e que, para piorar, essas contradições parecem ser necessárias.
Por exemplo, a "Faculdade de cada um se decidir ou agir segundo a própria
determinação" parece bem atraente, mas eu não gostaria
que uma pessoa que me desejasse fazer algum mal tivesse tamanha liberdade... Para
esses casos, a solução está lá mesmo no dicionário,
em outro significado: "Poder de agir, no seio de uma sociedade organizada,
segundo a própria determinação, dentro dos limites impostos
por normas definidas", ou ainda na seguinte definição: "Faculdade
de praticar tudo quanto não é proibido por lei". Pois é,
parece que precisamos limitar a liberdade para conseguirmos sobreviver em sociedade,
que é a base para podermos exercer o direito de sermos livres. Isso não
chega a ser cômico? Talvez tragicômico. É triste vermos que
não podemos ser inteiramente livres por não sabermos sequer lidar
com a liberdade total. Pior ainda é não sabermos ao certo que tipo
de liberdade se aplica a cada momento de nossas vidas. Outro
fator interessante é a forma como expressamos essa liberdade. Certa vez,
quando questionado, um aluno me disse: "Liberdade? É o direito de
ir e vir, de onde quer que seja, para qualquer lugar, sem restrições".
E por incrível que pareça, o rapaz pareceu satisfeito ao dizer isso,
como se tivesse esgotado o assunto! Em seguida, perguntei-lhe se ele tinha vontade
de conhecer as pirâmides do Egito (estávamos em meio a um curso sobre
a Grande Pirâmide de Gisé), obtendo dele um fervoroso "sim".
Indaguei o motivo de o aluno jamais havê-las visitado e o vi rir-se, acanhado,
dizendo que não tinha dinheiro para tanto. Podemos então concluir
que quem não tem dinheiro não é livre? Têm-se a liberdade
de escolher visitar Tóquio ou Paris, mas não se têm a liberdade
de optar por visitá-las, a menos que se tenha dinheiro? Essas perguntas
pareceram deixar todos os presentes perplexos, como se aquilo fosse algo novo
e pungente. Só então me dei conta da percepção de
liberdade que quase todos ali tinham: um ideal de liberdade total e irrestrita,
sem causas ou conseqüências, sem dependências nem interdependência. Tal
revelação foi intrigante. Seria esse tipo de mentalidade que aquelas
pessoas, muitas delas já pais e até avós, estariam incutindo
em seus filhos e netos? Que tipo de reflexo isso causaria em nossa sociedade presente
e futura? Talvez crianças que acreditam ser livres o bastante para ferir
os colegas de escola a seu bel-prazer? Ou para cometer violências que nem
sequer imaginamos ainda? Devemos, sim, valorizar e propagar
a liberdade, mas com a nítida e clara noção da responsabilidade
que ela traz consigo. Devemos nos lembrar de que o princípio da liberdade
é mesmo um direito inalienável, mas também que nossa sociedade
limitou, por fatores sócio-econômicos, nossa capacidade de exercitá-la.
Antes de hastearmos novas bandeiras e de deflagrarmos novas guerras, descubramos
primeiro que tipo de liberdade desejamos. Deixo aqui uma
sugestão: vamos refletir a respeito dos conceitos de liberdade que nutrimos
dentro de nós e que ensinamos a nossos descendentes. Lutemos por fazer
um futuro melhor, no qual tenhamos não apenas o direito, mas também
o poder para exercitar a liberdade. Alberto
Cabral |